PrEP: tecnologia de prevenção

Implementação da PrEP com CAB-LA de longa duração: perspectivas de profissionais de saúde em serviços públicos no Brasil

A profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV com cabotegravir injetável de longa duração (CAB-LA) pode ampliar a cobertura e a proteção, com potencial de aumentar a adesão à profilaxia.

Estudo conduzido por Cristina Pimenta, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz, no Rio de Janeiro, e outros colaboradores*, avaliou as percepções e insights de profissionais de saúde envolvidos na oferta de PrEP com CAB-LA para jovens, de 18 a 30 anos, com diversidade sexual e de gênero, no âmbito do estudo ImPrEP CAB Brasil. O trabalho foi apresentado, em forma de pôster, na 26ª Conferência Internacional sobre AIDS (AIDS 2026), realizada, de 26 a 31 de julho, no Rio de Janeiro, Brasil.

Um subgrupo de profissionais de saúde, incluindo médicos, enfermeiros, farmacêuticos e aconselhadores de serviços de PrEP oral diária, de seis cidades brasileiras, foi convidado a participar do estudo. Os investigadores realizaram entrevistas semiestruturadas on-line, que foram gravadas e, posteriormente, transcritas e analisadas.

Utilizou-se análise de conteúdo convencional para explorar as perspectivas dos profissionais de saúde e obter insights sobre três categorias principais: (1) conhecimento do cabotegravir de longa duração e eficácia percebida do medicamento; (2) desafios para apoiar a implementação do CAB-LA no serviço de saúde, o uso do autoteste de HIV antes da consulta, a utilização da ferramenta de saúde móvel (mHealth) e os lembretes de consulta; (3) percepções de necessidades para a sustentabilidade da implementação..

De abril a julho de 2025, foram realizadas 30 entrevistas com profissionais de saúde que atuavam em centros públicos de saúde localizados em Campinas, Florianópolis, Manaus, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. A maioria era composta por mulheres cisgênero (64%), brancas (73,4%), que possuíam de 30 a 39 anos (40%).

Esses profissionais perceberam o CAB-LA como uma estratégia eficaz e bem aceita. O medicamento foi considerado vantajoso em relação à PrEP oral diária. Em contrapartida, foi percebida uma falta de compreensão sobre o produto por parte dos usuários, que as vezes confundiam as injeções com uma vacina contra o HIV.

Os principais desafios foram relacionados a efeitos adversos locais (como a dor, por exemplo), bem como à saúde mental de  usuários e a fatores sociais que interferiam na continuidade do cuidado. A autotestagem para o HIV foi reconhecida como útil, mas dispensável caso existisse a disponibilidade de testes rápidos.

Intervenções de mHealth (vídeos, por exemplo) foram consideradas importantes para padronizar informações e apoiar o aconselhamento, sem substituir o contato presencial nem depender excessivamente do letramento digital dos usuários. Lembretes de consultas enviadas por mensagens foram amplamente valorizadas como facilitadores para a adesão e sustentabilidade da implementação.

Os entrevistados também afirmaram que a implementação do CAB-LA exige uma infraestrutura física adequada, sistema de registros e monitoramento bem definidos, capacitação contínua das equipes, cultura institucional de apoio, além de atitudes acolhedoras relacionadas à diversidade sexual e de gênero.

Para os autores, os achados da análise reforçam a viabilidade da implementação do CAB-LA e seu enorme potencial para fortalecer a prevenção do HIV no Brasil. Ressaltam a necessidade contínua de investimentos em infraestrutura, recursos humanos, tecnologias assistivas e estratégias de comunicação sensíveis às populações mais vulneráveis.

*Autores:

Cristina Pimenta (1), Claudio Mann (1), Eduardo Carvalheira (1), Marcos Benedetti (1), Carolina Coutinho (1), Cristina Jalil (1), Roberta Trefiglio (2), Alessandro Farias (3), Maria Mourão (4), José Madruga (2), Josué Lima (5), Ronaldo Zonta (6), Thiago Torres (1), Brenda Hoagland (1), Valdiléa Veloso (1), Beatriz Grinsztejn (1) e Grupo de Estudos ImPrEP CAB Brasil

1 – Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, Fiocruz, Rio de Janeiro, Brasil

2 – Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids (CRT), São Paulo, Brasil

3 – Centro Especializado em Diagnóstico, Assistência e Pesquisa, Salvador, Brasil

4 – Fundação de Medicina Tropical Heitor Vieira Dourado, Manaus, Brasil

5 – Centro de Referência em IST/Aids, Campinas, Brasil

6 – Centro de Testagem e Aconselhamento/Policlínica Centro, Florianópolis, Brasil.