PrEP, HSH e trans

Percepções de mulheres trans que participaram da pesquisa TransPrEP no Peru

Além de ser um importante avanço biomédico para prevenir o HIV, a pesquisa sobre a profilaxia pré-exposição(PrEP) contribui com um legado de experimentações sobre o vírus em comunidades marginalizadas e em ambientes com recursos limitados. Prova disso é o estudo TransPrEP, liderado por Amaya Perez-Bruner, da Universidade de Toronto, do Canadá, publicado em 27 de setembro, no Journal of the International AIDS Society, que explorou a complexidade da desconfiança nas pesquisas acerca de PrEP entre mulheres trans no Peru.

Os dados do ensaio foram obtidos por meio de 86 mulheres trans, residentes em Lima, com idade média de 29 anos, que participaram do estágio formativo (20 entrevistas) e das etapas de avaliação (34 entrevistas) de uma intervenção baseada em redes sociais. A fase formativa ocorreu entre maio e julho de 2015 e a etapa de avaliação aconteceu de abril a maio de 2019.

Três paradoxos da participação de mulheres trans na profilaxia surgiram como amplificadores da desconfiança: (1) apesar do aumento do investimento em pesquisas sobre PrEP para essa população, as melhorias alcançadas nos resultados de HIV foram percebidas de forma limitada pelas participantes em termos de interrupção de infecções; (2)efeitos colaterais relacionados à profilaxia e maus tratos transfóbicos por parte da equipe médica e equipe de pesquisadores foram motivos que fizeram mulheres trans abandonarem a PrEP, mesmo com o status de população-chave; e(3) limitações persistentes no acesso à PrEP, apesar do crescente envolvimento em ensaios clínicos, promoveram nas participantes a sensação de serem apenas “cobaias” para o avanço das pesquisas.

As descobertas destacam que a desconfiança sobre a PrEP é um reflexo das experiências das mulheres trans que tiveram, ao longo do tempo, laços de confiança rompidos com a comunidade e pesquisadores. Essa desconfiança é amplificada quando as participantes se sentem parte fundamental do estudo sobre a profilaxia, mas não se enxergam como uma das populações-chaves da profilaxia fora do ambiente acadêmico.

Os pesquisadores reafirmam a necessidade urgente de se entender a desconfiança como um problema sistêmico e de se promover a reformulação das campanhas de PrEP no Peru. Eles citam o exemplo de estudos anteriores que mostram que a profilaxia, quando oferecida juntamente com outras estratégias de prevenção, pode evitar 50% a 60% das novas infecções por HIV entre mulheres trans.

Fonte: site do Journal of the International AIDS Society, de 27 de setembro de 2021.

(https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/jia2.25769)