HIV, IST e Outros

Desafios e oportunidades da prevenção e tratamento do HIV na América Latina e Caribe

Nas últimas décadas, diversas opções de tratamento e prevenção do HIV aumentaram a capacidade de resposta à epidemia. No entanto, o acesso a novas tecnologias ainda é desigual, especialmente para países em desenvolvimento, como os da América Latina e Caribe. A América Latina segue uma direção oposta à tendência global de diminuição de novos casos de HIV, com aumento de 13% entre 2010 e 2024. Já no Caribe, embora tenha se registrado diminuição em novas infecções e mortes relacionadas à aids, importantes desigualdades de acesso persistem.

Nesse contexto, um artigo publicado na edição de julho de 2026 do periódico Journal of the International Aids Society buscou mapear os desafios e oportunidades enfrentados pela América Latina e pelo Caribe no enfrentamento do HIV. O artigo foi conduzido por Mateo Prochazka, da Organização Mundial da Saúde, e contou ainda com a colaboração de pesquisadores do INI/Fiocruz*.

Sobre a coleta de dados na comparação entre as regiões, os autores já apontam uma limitação. Tomando como base a cascada de cuidados do HIV, conjunto de etapas que compreende o diagnóstico, o início do tratamento e a supressão viral, apenas 17 dos 32 países (53%) latino-americanos relatam informações sobre os três pilares. Já para a região do Caribe, 6 dos 15 países não apresentam dados sobre nenhum dos pilares.

O artigo também analisa o alcance da meta estabelecida pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS) em relação à cascata de cuidados (> 95% das pessoas vivendo com HIV conhecendo seu status sorológico; > 95% das pessoas diagnosticadas em tratamento; e > 95% daquelas em tratamento com carga viral suprimida). Na América Latina, o Chile é o país que mais se aproximou da meta, alcançando > 95% em dois dos três pilares: 95% de pessoas vivendo com HIV conhecem seu status e 95% de pessoas em tratamento se encontram com carga viral suprimida. No entanto, apenas 75% daqueles que conhecem o status se encontram em tratamento. No contexto caribenho, apenas as Bahamas alcançaram > 95% em algum dos três pilares, enquanto nenhum dos países alcançou 80% de supressão viral.

Sobre a prevenção, os autores apontam uma distância entre os avanços científicos disponíveis e sua efetiva incorporação aos sistemas de saúde, já que novas tecnologias de prevenção ainda não estão amplamente acessíveis. Por outro lado, para aumentar a cobertura de uso da profilaxia pré-exposição (PrEP), os autores destacam oportunidades como a ampliação e diversificação da testagem para HIV, o uso de estratégias a partir de redes sociais e do recrutamento entre pares, e a integração da testagem e do tratamento de infecções sexualmente transmissíveis aos serviços de PrEP.

O artigo evidencia, portanto, a distância entre os avanços científicos disponíveis e sua efetiva tradução em impacto sobre a epidemia. Superar essa distância e aproveitar as oportunidades exigem não apenas novas tecnologias, mas também sistemas de saúde mais acessíveis e maior integração entre os serviços de saúde e destes com a comunidade.

Link para o artigo: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/jia2.70170

* Autores do artigo:

Mateo Prochazka (1), Kelika Konda (2, 3), Omar Sued (4), Hortencia Peralta (4), Andrea Boccardi (5), Thiago Torres (6), Monica Alonso (4), Valdiléa Veloso (6) e Beatriz Grinsztejn (6).

(1)Organização Mundial da Saúde, Genebra Suíça

(2)Escola de Medicina Keck, Universidade da Carolina do Sul, Los Angeles, EUA

(3)Universidade Peruana Cayetano Heredia, Lima, Peru

(4)Organização Panamericana de Saúde, Washington, EUA

(5)Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS), Brasília, Brasil

(6)Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, Fiocruz, Rio de Janeiro, Brasil.