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Vacinação e diagnóstico de mpox entre minorias sexuais e de gênero no Brasil

Desde o início do surto global de mpox em 2022, o Brasil foi o país com o segundo maior número de casos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Com infecções concentradas em minorias sexuais e de gênero, os esforços de vacinação no cenário brasileiro foram marcados pelo início tardio da campanha, critérios restritos de elegibilidade e barreiras estruturais de acesso.

Nesse contexto, um estudo de Mayara Secco e outros colaboradores do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz-RJ*, buscou descrever os padrões de vacinação contra a mpox no Brasil, assim como fatores associados ao diagnóstico da infecção. O artigo foi publicado na edição de julho do periódico Journal of the International Aids Society.

Realizado de agosto a dezembro de 2024, por meio de um questionário on-line divulgado em aplicativos de relacionamento e redes sociais, o estudo incluiu um total de 9546 participantes. Além da vacinação e do diagnóstico prévio de mpox, foram investigados aspectos sociodemográficos, condição sorológica para o HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (IST) e LGBTQIAPN+fobia internalizada.

Os resultados demonstraram uma baixa cobertura vacinal: apenas 4,9% (468) dos participantes relataram ter sido vacinados. Desses 468, 46,4% (217) receberam apenas uma dose, 46,6% (218) duas doses e 7,1% mais de duas doses. Esse dado é especialmente relevante, já que a proteção contra o mpox é maior após a segunda dose.

Dentre os fatores associados ao diagnóstico prévio de mpox e à vacinação estiveram: ter mais de cinco parceiros sexuais nos últimos seis meses, viver com HIV e usar ou já ter usado a profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV. Pontuações mais elevadas de LGBTQIAPN+fobia internalizada, por sua vez, se associaram a uma menor probabilidade de vacinação, possivelmente em razão de pouco acesso a serviços de saúde sexual.

Os achados do estudo evidenciam que a cobertura vacinal permanece extremamente baixa entre minorias sexuais e de gênero no país. Segundo os autores, esse cenário não decorre principalmente de resistência individual à vacinação, mas de barreiras estruturais, como a oferta insuficiente de doses e a desigualdade de acesso. O estudo reforça, portanto, a necessidade de integrar a vacinação de mpox com serviços de prevenção para HIV e outras IST, além de engajar a comunidade de modo a ampliar a prevenção e a vacinação.

Link para o artigo: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/jia2.70143

 

* Autores do artigo:

Mayara Secco, Paula Luz, Carolina Coutinho, Brenda Hoagland, Emilia Jalil, Cristina Pimenta, Marcos Benedetti, Sandra Cardoso, Valdiléa Veloso, Beatriz Grinsztejn e Thiago Torres, todos do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, Fiocruz, Rio de Janeiro, Brasil.