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Estudo revela associação entre discriminação, raça e sintomas depressivos entre pessoas com sexualidade e gênero diversos no Brasil

Pessoas com sexualidade e gênero diversos vivenciam múltiplas formas de opressão, com efeitos sobre diferentes dimensões de suas vidas, incluindo questões de saúde mental, como a depressão. Compreender os efeitos de experiências discriminatórias nessa população requer também que sejam considerados outros fatores de discriminação além da homofobia e transfobia, como o racismo.

Levando em conta esse cenário, artigo publicado na edição de setembro de 2026 do Plos Global Public Health investigou a relação entre sintomas depressivos, discriminação, homonegatividade internalizada e raça entre pessoas com sexualidade e gênero diversos no Brasil. O artigo foi assinado por Caroline Guimarães e outros colaboradores do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz-RJ*.

Conduzido de novembro de 2021 a janeiro de 2022, o estudo incluiu 6.220 pessoas (3.749 brancas, 1.685 pardas e 786 negras) convidadas por meio de aplicativos de encontros e de mídias sociais. Os pesquisadores utilizaram três questionários on-line: o Patient Health Questionnaire-9, que monitora pessoas com sintomas de depressão; a Explicit Discrimination Scale, que investiga a discriminação a partir de contextos sociais e raciais; e o Reactions to Homosexuality Scale, que avalia a homonegatividade internalizada segundo o grau de conforto social, a identificação pública perante os outros e a aceitação pessoal da própria identidade LGBTQIAPN+.

Os resultados revelaram uma elevada carga de sintomas depressivos na população estudada. A média do Patient Health Questionnaire-9 foi de 8,8 pontos, sendo maior entre participantes negros (9,6) e pardos (9,3) do que entre brancos (8,4). A discriminação também foi mais frequentemente relatada por participantes negros, que apresentaram pontuação média de 5,2, contra 3,7 entre pardos e 3,1 entre brancos segundo o Explicit Discrimination Scale. Maiores níveis de discriminação estiveram associados a maiores pontuações de sintomas depressivos nos três grupos raciais. A homonegatividade internalizada, medida pela Reactions to Homosexuality Scale, por sua vez, apresentou associação com sintomas depressivos entre participantes brancos e pardos, mas não entre os negros.

Os achados do estudo reforçam a importância de compreender a saúde mental de pessoas com sexualidade e gênero diversos considerando também as desigualdades raciais. Mais do que evidenciar a elevada frequência de sintomas depressivos, o estudo mostra que experiências de discriminação estão associadas aos sintomas de maneira consistente entre diferentes grupos raciais, ao mesmo tempo em que participantes negros e pardos apresentaram maiores níveis de discriminação e sintomas depressivos do que participantes brancos. A homonegatividade internalizada, por sua vez, apresentou associações distintas segundo raça/cor. Políticas de saúde voltadas à saúde mental de pessoas com sexualidade e gênero diversos devem, dessa forma, considerar a interseccionalidade entre diferentes formas de discriminação e seus efeitos sobre a saúde.

Link para o artigo: https://doi.org/10.1371/journal.pgph.0007276

* Autores:
Caroline Guimarães, Paula Luz, Carolina Coutinho, Emilia Jalil, Cristina Jalil, Beatriz Grinsztejn, Valdiléa Veloso, Lucilene Freitas e Thiago Torres, todos do Laboratório de Pesquisa Clínica em IST, Hepatites e Aids, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, Fiocruz, Rio de Janeiro, Brasil.