2026 Estudos ImPrEP PrEP: tecnologia de prevenção

ImPrEP CAB Brasil avalia resultados e aponta desafios para a integração do cabotegravir injetável de longa duração no SUS

O ImPrEP CAB Brasil foi um estudo de implementação coordenado pela Fiocruz que visava avaliar a viabilidade de integrar a oferta do cabotegravir injetável de longa duração (CAB-LA) como profilaxia pré-exposição (PrEP) na rotina do Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro, analisando sua efetividade na redução da incidência de HIV e no aumento da cobertura preventiva.

Realizado em seis serviços de PrEP, localizados em São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro, Manaus, Salvador e Florianópolis, de 2023 a 2025, o ImPrEP CAB Brasil teve seus resultados divulgados na edição de setembro do periódico The Lancet HIV, com artigo assinado pela pesquisadora principal do estudo Beatriz Grinsztejn e outros colaboradores*.

Os participantes elegíveis eram homens cisgênero, pessoas não-binárias designadas masculinas ao nascer e homens e mulheres transgênero que fazem sexo com homens, com idade de 18 a 30 anos, HIV negativos e que nunca haviam feito uso de PrEP. Para avaliar a efetividade do CAB-LA em comparação com o esquema oral, o estudo analisou os dados de 3.096 pessoas divididas em três grupos: 1) aquelas que optaram por utilizar o CAB-LA e que foram acompanhadas durante todo o estudo (1.201 pessoas); 2) as que optaram pela modalidade oral no início do estudo (246); 3) além de um grupo de comparação, composto por pessoas que iniciaram e seguiram usando a PrEP oral no SUS (1.649).

Havia a possibilidade de trocar de modalidade da profilaxia ou mesmo de descontinuar o seu uso. Os principais resultados analisados foram a incidência de HIV e o número de dias com cobertura adequada de PrEP, avaliando-se, especificamente para o CAB-LA, a adesão às datas das injeções, as taxas de troca entre os esquemas, a perda de visitas de acompanhamento e a segurança do medicamento.

Os resultados demonstraram que o CAB-LA proporcionou uma proteção muito superior quando comparado à alternativa orali: entre os participantes que escolheram o cabotegravir, 90,8% dos dias de acompanhamento estavam cobertos pela PrEP contra 47,3% entre aqueles que escolheram a modalidade oral no âmbito do estudo e 35,5% no grupo de comparação da PrEP oral no SUS. A incidência de HIV também foi menor no grupo CAB-LA, com 0,20 caso por 100 pessoas-ano, diante de 0,87 no grupo de PrEP oral do estudo e 1,48 no grupo de PrEP oral do SUS. Além disso, 92% das aplicações de CAB-LA ocorreram dentro da janela prevista, com reações no local da injeção (leves a moderadas) sendo o evento adverso mais relatado.

O estudo demonstra que o CAB-LA pode ser incorporado ao SUS com elevada adesão e diminuição efetiva da incidência do HIV. No entanto, os autores ressaltam a necessidade de haver uma melhor negociação para a aquisição do medicamento. O Brasil, por ser um país de renda média, é impedido, segundo regras internacionais, de acessar versões genéricas do CAB-LA. Sem a superação dessa barreira comercial, a expansão em larga escala no sistema público fica comprometida. Dessa forma, um esforço de cooperação internacional é necessário para que os benefícios dessa inovação se tornem acessíveis àqueles que dela mais precisam.

Link para o artigo: https://www.thelancet.com/journals/lanhiv/article/PIIS2352-3018(26)00201-8/fulltext

*Autores:

Beatriz Grinsztejn (1), Thiago Torres (1), Brenda Hoagland (1), Carolina Coutinho (1), Mayara Secco (1), Iuri Leite (2), Marcelo Cunha (2), Monica Derrico (1), Emilia Jalil (1), Sandra Cardoso (1), Roberta Trefiglio (1), Alessandro Farias (3), Maria Paula Mourão (4), José  Madruga (5), Josué de Lima (6), Ronaldo Zonta (7), Gabrielle O’Malley (8), Julio Moreira (9), Keila Simpson (10), Alex Rinehart (11), Nanlesta Pilgrim (11), Anna Hellstrom (12), Anne-Isabelle Cameron (12), Paula Mendes Luz (1), Raphael Landovitz (13), Marcos Benedetti (1), Cristina Pimenta (1), Ronaldo Moreira (1) e Valdiléa Veloso (1).

 

(1) Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, Fiocruz, Rio de Janeiro, Brasil

(2) Escola Nacional de Saúde Pública, Fiocruz, Rio de Janeiro, Brasil

(3) Centro Especializado em Diagnóstico, Assistência e Pesquisa, Salvador, Brasil

(4) Fundação de Medicina Tropical Heitor Vieira Dourado, Manaus, Brasil

(5) Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids, São Paulo, Brasil

(6) Centro de Referência em DST/Aids, Campinas, Brasil

(7) Centro de Testagem e Aconselhamento – Policlínica Centro, Florianópolis, Brasil

(8) Departamento de Saúde Global, Escolas de Medicina e Saúde Pública, Universidade de Washington, Seattle, EUA

(9) Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT, Rio de Janeiro, Brasil

(10) Associação Nacional de Travestis e Transexuais Salvador, Brasil

(11) ViiV Healthcare, Londres, Reino Unido

(12) Unitaid, Genebra, Suíça

(13) Universidade da Califórnia – Los Angeles, Los Angeles, EUA.