Global Village: ImPrEP LEN Brasil debate o ativismo na AIDS 2026
Nem só da apresentação de trabalhos científicos viveu a 26ª Conferência Internacional sobre AIDS (AIDS 2026), ocorrida, de 26 a 31 de julho, no Rio de Janeiro. A Global Village (Aldeia Global), área destinada a ativistas de todo o mundo, ratificou a sua importância no universo do HIV/aids sendo palco de mais de 200 atividades, entre sessões, apresentações culturais, criação de redes de contatos, visitas a estandes de ONGs e exposições de arte.
Para debater a participação dos ativistas brasileiros no evento, o ImPrEP LEN Brasil realizou, no dia 1° de setembro, em sua página institucional do YouTube, a live “AIDS 2026: Ecos da Global Village”. O encontro contou com as participações de Thiago Jerohan, assessor de projetos da ONG Gestos-PE, Felipe Estevam, presidente da ONG Impulse Rio, além dos educadores de pares Vinícius Francisco e Pisci Bruja, ambos da Casa da Pesquisa/Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids-SP, e Laylla Monteiro, Toni Araújo e Josias Freitas, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas/Fiocruz-RJ. A mediação ficou a cargo de Julio Moreira e Keila Simpson, assessores comunitários do ImPrEP LEN Brasil para as populações HSH e trans, e Luciana Kamel, coordenadora de educação comunitária do projeto.
Após uma breve introdução dos moderadores, Julio abriu o encontro perguntando o que cada um dos convidados havia sentido ao participar da Global Village. Thiago foi o primeiro a responder: “O que mais me marcou foi a forma como o público presente ocupou aquele espaço. Fiquei encantado com as atividades desenvolvidas pela nossa comunidade”. Em seguida, foi a vez de Felipe opinar: “Incrível como o mundo inteiro estava representado ali. Foram dias de muita troca e aprendizado”.
Vinícius lamentou que os ativistas tivessem tido pouco contato com os cientistas. “Apesar desse distanciamento, acredito que o saldo foi positivo. A AIDS é a única conferência do mundo que nos dá essa oportunidade. Lamento muito que os congressos nacionais não disponibilizem espaços como esse para nós, ativistas”.
“Concordo com o Vinícius quando ele reclama do distanciamento, mas lembro que a Global Village também é um espaço científico e que os espaços reservados para a comunidade científica também recebem ativistas. A integração existe, mas o nosso desafio é fazer com que ela seja ainda maior”, observou Thiago.
Pisci também opinou sobre o assunto: “Hoje, existe uma separação entre quem produz respostas científicas ao HIV e a sociedade civil, e o papel dos educadores de pares é o de construir pontes para unir esses dois polos. Não acabaremos com a epidemia de aids enquanto a comunidade científica não entender que nós, LGBTI+, também estamos no centro do saber. A nossa experiência é única, pois ninguém passa pelo que a gente vive”.
Atividades e representatividade
Dando prosseguimento à live, Keila quis saber das diversas atividades realizadas na Global Village. “Trabalho na Fiocruz há mais de 20 anos e nunca sonhei em ver uma conferência internacional no Rio de Janeiro. Fiquei impactado com as apresentações maravilhosas das mulheres trans. É muito gratificante ver essas pessoas tendo voz, se sentindo representadas em um evento dessa magnitude”, afirmou Josias.
Layla concordou: “Foi fantástico levar a arte das mulheres trans à comunidade global. Uma pena que a gente não tenha esse ambiente de pertencimento em outras conferências”. “A Global Village foi, antes de tudo, um ambiente acolhedor. Conseguimos mostrar a nossa arte e nosso trabalho para ativistas de todo o mundo. E a recepção não podia ter sido melhor”, ressaltou Toni.
“O espaço também foi ótimo para que gente pudesse aumentar a nossa rede de contatos. Tivemos muita troca de experiências com ativistas da América Latina, que jamais teríamos acesso a não ser em eventos como esse”, lembrou Vinícius. Toni concordou: “Conheci pessoas encantadoras e inspiradoras que vou levar para o resto da vida”.
A reunião já se encaminhava para o final quando Luciana perguntou sobre os debates relacionados à profilaxia pré-exposição (PrEP) realizados na Global Village. Thiago disse: “Concordamos que a PrEP é um avanço significativo na prevenção do HIV, mas enquanto não for descentralizada, ela não será uma estratégia capaz de acabar com a epidemia de aids. A PrEP tem que ser para todo mundo e não apenas para alguns, como é hoje”.
“Outro ponto importante que abordamos foi o trabalho dos educadores de pares em relação à profilaxia. Aqui no Rio de Janeiro, procuramos fazer esse trabalho de descentralização da PrEP. Ainda existem diversas barreiras, mas estamos lutando para transpô-las”, destacou Josias. Layla aproveitou para tocar em um ponto delicado: “Acho que hoje uma das maiores barreiras que enfrentamos são as fake news. E o mais triste é que muitas delas partem de pessoas que se dizem autoridades de saúde. Por isso, espaços como a Global Village são tão importantes. É ali que temos a oportunidade de disseminar a verdade”.
Pisci lembrou de outra discussão da Global Village: “Falamos muito sobre o problema do financiamento, que sempre afetou o dia a dia do trabalho dos educadores de pares. Parece que só agora, quando esse corte também atingiu a pesquisa científica, o assunto ganhou espaço nas conferências. Espero que em um futuro próximo os governos entendam não haver solução para a epidemia da aids que não passe pela atuação da dos cientistas e da sociedade civil”.
Felipe e Josias lamentaram a baixa representatividade da população de homens trans na Global Village. “Rodei o espaço durante todos os dias da conferência e não me lembro de ter visto nenhum homem trans participando de um estande ou de alguma outra atividade. Esse público é muito importante e não pode estar invisibilizado em um evento tão grande e diverso”, destacou Felipe.
Para finalizar o encontro, os mediadores pediram para que os convidados definissem a Global Village em apenas uma palavra ou expressão: “incrível”, “revolucionário”, “acolhedor”,”inovador”, “surpreendente”, “mágico” e “espaço de resistência” foram os termos utilizados.
A live “AIDS 2026: Ecos da Global Village” encontra-se disponibilizada na página do ImPrEP no YouTube (https://www.youtube.com/@projetoimprepini-fiocruz6657) e consta do portfólio do Canal ImPrEP neste site.



