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Transcendendo: poucos cuidados com travestis e mulheres trans no Brasil

Na maior parte dos países, travestis e mulheres transexuais enfrentram os mais variados cenários de exclusão, especialmente no campo da saúde. No Brasil, essa realidade não é diferente, como demonstra o estudo “Transcendendo: um estudo de coorte de mulheres transexuais infectadas e não infectadas pelo HIV no Rio de Janeiro, Brasil”, parte da tese de doutoramento em Pesquisa Clínica em Doenças Infecciosas de Ana Cristina Garcia Ferreira, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz (INI/Fiocruz), sob orientação da pesquisadora Beatriz Grinsztejn.

O trabalho, que contou com diversos co-autores, como a educadora comunitária Laylla Monteiro, traz informações e dados sobre a primeira coorte transespecífica em um país de baixa ou média renda. Recentemente publicado no periódico científico Transgender Health, 2019, Apr. 5, o estudo apresenta a coorte Transcendendo de travestis e mulheres trans do INI/Fiocruz e avalia informações das participantes que entraram na coorte entre agosto de 2015 a julho de 2017, com avalição de aspectos de saúde de 322 travestis e mulheres trans com idade mediana de 31,5 anos, 174 (54%) delas infectadas pelo HIV.

Por meio de visitas anuais, foram coletados dados sobre aspectos sociodemográficos, comportamentais, transição de gênero, procedimentos de afirmação, uso de hormônios, discriminação, violência, saúde clínica e mental, prevenção do HIV e cuidados (para aquelas infectadas pelo HIV), além da realização de exames físicos, laboratoriais e medidas antropométricas.  “A informação de base do Transcendendo reforça o cenário de marginalização e privação em torno das travestis e mulheres trans. A maioria das participantes tinha baixa renda (62% viviam com menos de US$ 10,00/dia), demonstrava um envolvimento muito alto no trabalho sexual (78,6%) e relatava aumento na ocorrência de violência sexual (46,3%) e física (54%)”, informa Ana Cristina.

Outros resultados do estudo mostram que a profilaxia pré-exposição (PrEP) foi utilizada por 18,8% das travestis e mulheres trans não infectadas pelo HIV e que o rastreamento positivo para depressão (57,8%) e uso problemático de tabaco (56,6%), cannabis (28,9%), cocaína (23,8%) e álcool (21,5%) foi elevado. Além disso, quase todas as participantes (94,8%) relataram o uso de hormônios em algum momento, principalmente sem supervisão médica (78,7%). Na avaliação da co-autora Laylla Monteiro, “os resultados descrevem um contexto de exclusão vivenciado por travestis e mulheres trans, expondo vulnerabilidades dessa população em um país de renda média, com pouco acesso a cuidados transespecíficos, prevenção e assistência ao HIV e atenção à saúde mental”.

Para Ana Cristina, abordar as experiências e necessidades da população trans pode ajudar no desenvolvimento de estratégias para diminuir o estigma, melhorar o ambiente dos cuidados de saúde, orientar futuras pesquisas sobre morbidades, uso de hormônios, uso de substâncias e intervenções transespecíficas para apoiar as recomendações relacionadas à saúde. “Em última análise, contribui para diminuir as lacunas em relação à saúde da população trans e reforça que os cuidados trans não podem ser desvinculados do ambiente social que envolve as travestis e mulheres trans”.

 

Foto: Luciana Kamel