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A interseção entre raça e renda na discriminação percebida entre minorias sexuais e de gênero

O conceito de interseccionalidade permite a compreensão de como situações de discriminação — baseadas em raça, classe e orientação sexual — podem se sobrepor em múltiplos eixos de opressão. Embora pesquisas apontem que determinadas populações são discriminadas em função de sua orientação sexual ou identidade de gênero, o conhecimento sobre como raça e classe social potencializam e moldam a discriminação percebida ainda é limitado.

Diante dessa lacuna, um estudo analisou se e como raça e renda se interseccionam para produzir experiências de discriminação percebida entre pessoas de diversidade sexual e de gênero no Brasil. O estudo foi publicado na edição de abril do periódico BMC Public Health e conduzido por Thiago Torres, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz-RJ, e colaboradores*.

Com um desenho transversal, a pesquisa partiu de um levantamento on-line com 7.878 participantes de minorias sexuais e de gênero a partir de 18 anos, recrutados por aplicativos de relacionamento e redes sociais de novembro de 2021 a janeiro de 2022. A discriminação percebida foi mensurada pela Escala de Discriminação Explícita, que permite identificar a frequência de discriminações ao longo da vida em função de fatores como raça, classe, orientação sexual, entre outros. As pontuações da escala iam de 0 a 24, sendo que valores mais altos indicam maior frequência de experiências discriminatórias ao longo da vida.

Os resultados mostram que o grupo de pessoas brancas de alta renda apresentou o menor escore médio de discriminação (2,9), enquanto pessoas negras — independentemente da renda — tiveram os escores mais elevados, próximos de 5,0. Entre pardos, a discriminação foi maior entre os de baixa renda (3,9) em comparação aos de alta renda (3,5). Além disso, pessoas transgênero apresentaram escores de discriminação 2,38 vezes maiores que homens cisgênero, e pessoas não-binárias, 1,65 vezes maiores. 

Os achados do estudo reforçam que a renda funciona como fator de proteção apenas para grupos racialmente privilegiados, ao passo que, para pessoas negras — mesmo em posição econômica mais alta —, a discriminação persiste como fenômeno estrutural. Isso reforça a necessidade de políticas públicas que enfrentem o racismo de forma autônoma e interseccional, para além de intervenções focadas exclusivamente em classe ou orientação sexual.

Link para o artigo: https://link.springer.com/article/10.1186/s12889-026-27313-4

* Autores:

Thiago Torres (1), Lucilene Freitas (1), Mayara Secco (1), Caroline Guimarães (1), Karine  Barreto (2), Brenda Hoagland (1), Valdiléa Veloso (1), Beatriz Grinsztejn (1), João Bastos (3) e Paula Luz (1) .

(1) Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, Fiocruz, Rio de Janeiro, Brasil

(2) Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, Fiocruz, Rio de Janeiro, Brasil

(3) Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade Simon Fraser, Burnaby, Canadá.