Aceitabilidade e usabilidade de autotestes de hepatite C entre homens cis que fazem sexo com outros homens, travestis e mulheres trans em uso de PrEP
O autoteste para hepatite C pode aumentar o diagnóstico entre populações mais vulneráveis, sobretudo ao reduzir barreiras relacionadas ao acesso aos serviços de saúde. Partindo dessa possibilidade, Hugo Perazzo, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), da Fiocruz-RJ, e colaboradores*, em artigo publicado na revista AIDS and Behavior em junho de 2026, avaliaram a aceitabilidade e a facilidade de uso de dois tipos de autoteste (amostra de sangue e fluido oral) entre homens cisgênero que fazem sexo com outros homens, travestis e mulheres transgênero em uso da profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV.
A pesquisa incluiu 250 pessoas atendidas no INI/Fiocruz de julho de 2024 a janeiro de 2025. A maioria era formada por homens cis que fazem sexo com outros homens (88%), enquanto 12% eram mulheres trans. Além de buscar compreender se os participantes conseguiam interpretar corretamente os resultados, o estudo investigou quais dificuldades eles enfrentaram e quanto de auxílio necessitaram durante o procedimento.
Os resultados indicaram que o teste com fluido oral foi o mais simples de executar. Enquanto 62,4% precisaram de ajuda em pelo menos uma etapa do teste sanguíneo, essa proporção foi de 28,8% no teste oral. No teste sanguíneo, as principais dificuldades envolveram coletar a gota de sangue e adicionar a solução necessária para realizar o exame. Já no oral, o erro mais frequente foi a coleta inadequada da amostra, observada em 29,6% dos casos. Pessoas com menor escolaridade apresentaram aproximadamente duas vezes mais chance de precisar de auxílio no teste com sangue.
A aceitação dos autotestes foi alta: mais de 95% afirmaram se sentir seguros, que repetiriam o procedimento e o recomendariam a familiares, amigos ou parceiros sexuais. Na comparação entre os métodos, o teste oral foi o preferido por 46,4%, enquanto 36,4% escolheram o sanguíneo, tendo mais da metade da população pesquisada declarado que gostaria de realizar futuros testes em casa, com instruções e vídeos explicativos.
Os autores concluem que os dois métodos podem contribuir para integrar o rastreamento da hepatite C nos serviços de PrEP, embora a elevada necessidade de auxílio, especialmente no teste sanguíneo, indique que sua implementação deverá incluir materiais mais acessíveis e diferentes modalidades de suporte.
Link para o artigo: https://link.springer.com/article/10.1007/s10461-026-05207-1
*Autores do artigo:
Hugo Perazzo (1), Sandra Cardoso (1), Thiago Torres (1), Daniel Bezerra (1), Ketiuce Zukeram (1), Marcos Benedetti (1), Julio Moreira (2), Brenda Hoagland (1), Cristina Pimenta (1), Beatriz Grinsztejn (1) e Valdiléa Veloso (1).
(1) Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, Fiocruz, Rio de Janeiro, Brasil
(2) Grupo Arco-Íris, Rio de Janeiro, Brasil.



