Barreiras e desafios na difusão do slogan indetectável = intransmissível
O slogan Indetectável = Intransmissível (I = I) resume o fato de que pessoas vivendo com HIV em terapia antirretroviral e com carga viral suprimida não transmitem o vírus. Mesmo sendo uma evidência científica, sua compreensão e difusão ainda é limitada para a população em geral e mesmo entre profissionais de saúde. Essa disparidade foi abordada na edição de maio do periódico PLOS Medicine, em um texto assinado por Thiago Torres e Paula Luz, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz-RJ.
No artigo, os autores recorrem a evidências de estudos de diferentes países e contextos. É citado, por exemplo, um estudo brasileiro de novembro de 2020 no qual 79% das pessoas vivendo com HIV consideravam o I = I completamente preciso (carga viral indetectável significando nenhuma transmissão do vírus), em contraste com apenas 44% dos gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens não vivendo com HIV e 17% da população geral.
Em outros contextos, estudos na África Subsaariana também revelaram ceticismo e relutância em aceitar o I = I: em Uganda, homens duvidavam da possibilidade de terem relações sorodiferentes, mesmo quando a pessoa vivendo com HIV estava em terapia antirretroviral; já em Ruanda, a maioria dos participantes de um estudo qualitativo com pessoas com HIV expressou ceticismo ou resistência em relação ao slogan.
O artigo menciona, ainda, que, no nível individual, a compreensão do I = I é influenciada por fatores como renda e escolaridade. Sobre isso, citam um estudo de 2024 com 23.981 participantes de diversidade sexual e de gênero no Brasil, que mostrou que maior renda e escolaridade aumenta consideravelmente as chances de internalização do slogan.
Sobre a difusão de I = I entre profissionais de saúde, há ainda ampla evidência da resistência ou relutância em transmiti-lo a pacientes. Como defendem os autores, quando os profissionais omitem ou minimizam essa evidência, acabam ajudando a perpetuar o estigma e limitam a autonomia do paciente.
Como aponta o artigo, a compreensão do I = I melhora a intimidade sexual, aumenta o engajamento em serviços de saúde e reduz estigmas. Contudo, a divulgação dessa mensagem não pode se restringir à evidência científica, nem permanecer concentrada em grupos socialmente privilegiados. Superar as barreiras de comunicação e confiança, enfrentando seus múltiplos desafios, é o próximo desafio para que I = I seja verdadeiramente acessível para todos.
Link para o artigo:
<https://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.1005090>.



