Artigo ImPrEP aborda confiança entre pares na prevenção do HIV: eficácia da distribuição secundária de autotestes e cupons por usuários de PrEP
A prevenção combinada do HIV consiste em múltiplas estratégias para reduzir e evitar novas infecções, como as profilaxias pré e pós-exposição (PrEP e PEP) e a testagem, sendo especialmente eficaz quando adaptadas às necessidades de populações-chave. Essa abordagem pode se beneficiar da confiança existente nas redes de pares, aumentando sua eficácia para além dos serviços de saúde e prevenção tradicionais — a expectativa é que, quando a oferta de ferramentas preventivas parte de alguém do próprio círculo social, haja maior possibilidade de aceitação e menor estigmatização.
Nesse contexto, um estudo do projeto ImPrEP avaliou se a distribuição por pares de autotestes de HIV e de cupons de acesso gratuito a serviços de prevenção combinada poderia ampliar o acesso aos serviços de prevenção combinada junto a gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens (HSH), travestis e mulheres transgênero no Brasil e no Peru. A análise foi conduzida por Brenda Hoagland, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz-RJ, e outros colaboradores*, com os resultados publicados na edição de abril do periódico JAIDS – Journal of Acquired Immune Deficiency Syndrome.
A distribuição secundária, ou seja, quando realizada entre pares, e não a partir de profissionais de saúde, foi feita por HSH, travestis e mulheres trans que já usavam PrEP oral há pelo menos seis meses. Os pesquisadores compararam a eficácia de dois grupos: um com autotestes de HIV e cupons de incentivo, e outro apenas com cupons.
De julho de 2019 a janeiro de 2021, 694 participantes foram incluídos no estudo (418 no Brasil e 276 no Peru), com 50,6% alocados no braço do estudo com autoteste e cupom e 49,4% no grupo apenas com cupons. Dos 3.470 cupons distribuídos, 2.472 (71,2%) foram efetivamente entregues, resultando em 321 pessoas recrutadas (155 no Brasil e 166 no Peru).
Embora os participantes que receberam autotestes e cupons tenham distribuído um número ligeiramente maior de cupons em comparação aos que receberam apenas cupons, o braço composto somente por cupons mostrou-se superior em eficácia de recrutamento, especialmente no Peru (21,9% vs. 12,0%). Destaca-se que 84,5% dos recrutados relataram que o recebimento do cupom ou autoteste motivou sua ida ao serviço, e 11,3% dos testados foram diagnosticados com HIV, sendo encaminhados para terapia antirretroviral.
Os autores concluem que ambas as estratégias avaliadas são viáveis e bem-aceitas, mas o uso exclusivo de cupons demonstrou maior eficácia para recrutar pessoas para serviços de prevenção combinada, possivelmente porque o autoteste domiciliar com resultado negativo pode eliminar o incentivo para buscar outros serviços, como a PrEP. A abordagem com cupons é mais simples, menos estigmatizante e carrega o endosso social de um par que já usa a profilaxia.
Link para o artigo: https://journals.lww.com/jaids/abstract/9900/hiv_self_testing_and_coupons_distribution_by.838.aspx
Autores:
Brenda Hoagland (1), Thiago Torres (1), Kelika Konda (2), Ronaldo Moreira (1), Iuri Leite (3), Marcelo Cunha (3), Karen Campos (2), Gino Calvo (2), Cristina Pimenta (1), Marcos Benedetti (1), Carla Rocha (1), Jose Grangeiro (1), Edilene Bastos (1), Sandro Nazer (1), Claudio Palombo (4), Mauricio de Vasconcellos (5), Carlos Cáceres (2), Beatriz Grinzstejn (1) e Valdiléa Veloso (1).
(1) Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, Fiocruz, Rio de Janeiro, Brasil
(2) Centro de Investigação Interdisciplinar em Sexualidade, Saúde e Aids, Universidade Peruana Cayetano Heredia, Lima, Peru
(3) Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fiocruz, Rio de Janeiro, Brasil
(4) Hospital Municipal Carlos Tortelly, Rio de Janeiro, Brasil
(5) Sociedade para o Desenvolvimento da Pesquisa Científica, Brasil.



