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Vacina de m RNA protege macacos contra vírus semelhantes ao HIV

O mesmo RNA mensageiro (mRNA) usado para as vacinas Pfizer-BioNTech e Moderna contra a Covid-19 também se mostra promissor para a prevenção do HIV, de acordo com apresentação realizada na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI 2021), ocorrida de forma virtual de 6 a 10 de março de 2021.

Apesar de mais de três décadas de pesquisa, os cientistas tiveram pouco sucesso no desenvolvimento de vacinas para prevenir o HIV. Até o momento, apenas canarypoxvírus (vírus da varíola dos canários) seguido por um reforço da proteína gp120se mostrou parcialmente eficaz em estudos com seres humanos; no entanto, em um grande estudo mais recente, essa eficácia foi ainda menor.

Dois outros grandes estudos, Mosaico e Imbokodo, estão testando uma abordagem que usa um primer de adenovírus (vírus que causa doenças respiratórias) seguido por um reforço que contém um ‘mosaico’ de proteínas de várias linhagens do HIV.

Peng Zhang, do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID), em colaboração com a Moderna, está adotando uma abordagem diferente que usa nanopartículas de lipídios, ou bolhas de gordura, para fornecer pequenos comprimentos de um ácido nucleico que fornece instruções para fazer proteínas. Os mRNAs são encontrados em toda a célula e agem como mensageiros, daí o nome.

Os pesquisadores desenvolveram uma vacina que introduz mRNA em uma célula e a instrui a fazer as proteínas externas em três subtipos diferentes de HIV, além da proteína estrutural do SIV, o primo símio do HIV. As células, então, montam essas proteínas para formar partículas semelhantes a vírus que desencadeiam uma resposta imunológica. Essas partículas não são vírus porque não têm material genético próprio e não podem se reproduzir, mas parecem vírus para o sistema imunológico.

Por dentro do estudo

Neste estudo, sete macacos machos receberam um dos dois regimes de vacina, enquanto outros sete receberam injeções de placebo.

Os macacos vacinados receberam primeiro, ao longo de 20 semanas, três injeções de uma vacina contendo mRNA para as proteínas do subtipo B do HIV, o tipo predominante na Europa e na América do Norte. Eles, então, receberam quatro injeções durante 20 semanas de uma segunda vacina misturando mRNA dos subtipos A e C do HIV, que são predominantes no leste e no sul da África.

Além disso, três macacos receberam reforços finais contendo proteínas estabilizadas de HIV conhecidas como trímeros SOSIP, que mantêm a proteína em uma forma aberta, expondo uma região conservada que é mais facilmente reconhecida por anticorpos amplamente neutralizantes.

Depois de receber os regimes completos de vacina, os macacos foram submetidos a 13 exposições retais semanais de um SHIV de nível 2, um vírus híbrido HIV/SIV projetado –  a maioria das linhagens de HIV em circulação é classificada como de nível 2.

Os macacos rapidamente produziram altos níveis de anticorpos que se ligam ao trímero da proteína, bem como anticorpos neutralizantes contra as proteínas do HIV do subtipo B – aquelas no primeiro conjunto de vacinas. A partir de, aproximadamente, 49 semanas, produziram níveis mais baixos de anticorpos neutralizantes de reação cruzada contra as proteínas dos subtipos A e C. Ao final do regime de imunização, os macacos haviam produzido anticorpos neutralizantes de amplo espectro de nível 2 contra uma variedade de linhagens virais.

Todos os sete animais do grupo de placebo foram infectados em cerca de um mês e meio, começando após a segunda exposição. Todos os macacos vacinados permaneceram livres do SHIV por volta do primeiro mês, mas depois começaram a ficar infectados; alguns, no entanto, permaneceram não infectados por dois meses, após todas as exposições.

Isso resultou em uma redução de 85% no risco de infecção geral, uma redução de 76% para os macacos que receberam as vacinas de mRNA sozinhas, sem um reforço, e uma redução de 88% para aqueles que receberam as vacinas de mRNA mais os reforçadores da proteína trímero. A proteção foi correlacionada com a presença de anticorpos no local de ligação do CD4, o mesmo que o HIV e o SIV usam para entrar nas células.

Zhang afirmou: “A plataforma de mRNA representa uma abordagem muito promissora para o desenvolvimento de uma vacina contra o HIV no futuro.” Richard Koup, do Centro de Pesquisa de Vacinas do NIAID, que moderou o briefing pós-apresentação, complementou:“Os macacos desenvolveram uma atividade neutralizante razoável e foram parcialmente protegidos da infecção. Isso fornece um novo caminho, potencialmente, para mover esse processo para a vacinação humana.”

Fonte: Aids Map – https://www.aidsmap.com/news/mar-2021/mrna-vaccine-protects-monkeys-against-hiv-virus Site CROI: https://www.croiconference.org/abstract/an-env-gag-mrna-vaccine-protects-macaques-from-heterologous-tier-2-shiv-infection/