2020 Notícias

Uma avaliação sobre a confiança em Indetectável = Intransmissível

O slogan Indetectável = Intransmissível (I = I) é usado atualmente como divulgação do fato de que indivíduos que vivem com HIV e possuem carga indetectável pelo uso de antirretrovirais não transmitem o vírus. Estudos já avaliaram essa questão em diversos contextos, como entre casais heterossexuais e do mesmo sexo, em casos de gravidez sem transmissão da mãe para o filho etc. Apesar de essa equivalência Indetectável = Intransmissível ser uma evidência científica, sabe-se que ela ainda não é um consenso, seja entre profissionais dentro da área de saúde, seja para a população em geral.

Um estudo conduzido por Thiago Torres e outros pesquisadores do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz e da Universidade McGill, do Canadá, buscou avaliar a compreensão do I = I a partir de um questionário on-line. Seus resultados constam no artigo Uma chamada para melhorar a compreensão de que Indetectável equivale a Intransmissível (I = I) no Brasil, publicado no Journal of the International Aids Society, de 6 de novembro passado (https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/jia2.25630).

Como parâmetro de avaliação, o artigo considerou três grupos distintos: pessoas vivendo com HIV; gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens (HSHs) com status negativo para HIV ou desconhecido; e população geral (outras pessoas com status negativo para HIV ou desconhecido). A pergunta que avaliou a compreensão do slogan I = I foi “Em relação a indivíduos que vivem com HIV que transmitem o vírus por meio do contato sexual, o quão correto você acredita que seja o slogan I = I?”.

Ao todo, 1.690 participantes completaram o questionário. Desse total, 347 eram pessoas vivendo com HIV (20%), 785 HSHs (45%) e 558 (35%) da população geral. Dentre esses 3 grupos, HSHs eram mais jovens (com idade média de 33 anos). O grupo das pessoas que vivem com HIV foi o que mais acreditou na equivalência I=I, com 80% de resultado positivo. Já os resultados para HSHs e população geral foram, respectivamente, 45% e 17%.

Sobre fatores associados para as respostas positiva ou negativa os resultados foram:

  • Pessoas vivendo com HIV, indivíduos que se identificaram como negros ou pardos tenderam a acreditar menos em I = I, ao passo que pessoas que vivem com HIV com parceiro fixo confiavam mais no slogan;
  • Segundo os HSHs, se autodeclarar como gay, ter renda equivalente à classe média/alta e morar em uma capital se associaram a uma resposta positiva sobre a confiança em I = I;
  • Por fim, o grupo que mais respondeu positivamente entre a população geral foi aquele que já se testou para o HIV pelo menos uma vez na vida.

Ter uma clara compreensão de I = I é uma arma importante para a prevenção e tratamento do HIV, assim contra o estigma contra pessoas que vivem com HIV. Divulgar essa evidência científica entre os grupos que têm mais resistência ou desconhecem esse fato é, portanto, uma estratégia fundamental para lidar com a pandemia de HIV.