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Um panorama da PrEP em alguns países em desenvolvimento

Os países em desenvolvimento possuem características específicas que em geral não aparecem em estudos com a PrEP realizados nos Estados Unidos e Europa. Tentar detectar tais fatores significa ampliar a possibilidade de difusão da PrEP nestes locais.

A partir desta demanda, o artigo Conhecimento prévio e disposição em usar a PrEP entre HSHs de países de renda baixa e média: um estudo sistemático e meta-análise[1] considerou os resultados de 23 estudos com a PrEP realizados entre 2011 e 2016. Tal base de dados serviu para um estudo comparativo (meta-análise) com o principal intento de avaliar em que medida HSHs se sentiriam dispostos ou não a fazer a PrEP. No total, foram incluídos 14.040 HSHs dos seguintes países: Brasil, China, Índia, Quênia, Malásia, Birmânia, Peru, Tailândia, Uganda, Vietnã e África do Sul.

Os autores do artigo notaram em geral um baixo conhecimento prévio[2] da PrEP – uma média de 29,7% usuários. Este número, no entanto, não foi homogêneo, pois enquanto a Índia não registrou nenhuma incidência de conhecimento da PrEP entre os participantes, no Brasil, tal número foi de 61,3% usuários. Entre os fatores que puderam ser apontados como facilitadores para se conhecer a PrEP estão: ser maior idade, possuir mais anos de educação formal e usar frequente a internet como fonte de informação.

Mesmo com este baixo índice, uma média geral de 64,4% demonstrou interesse em fazer uso da PrEP. Este número, novamente, variou consideravelmente entre os países – 19,1% na China e 96,2% no Peru.

Outro parâmetro de comparação considerado pelo artigo foi em que medida os efeitos colaterais poderiam afastar potenciais usuários da profilaxia. Na Tailândia, 39,2% demonstraram interesse inicial; no entanto, após a explicação sobre possíveis efeitos, esse número foi reduzido para 24,6%. Já na China, 44,7% dos participantes demonstraram receio quanto aos efeitos em suas dietas e no sono, enquanto na Birmânia a preocupação mais registrada foi sobre as consequências de usar os medicamentos da PrEP durante um longo tempo.

Dúvidas sobre a eficácia também foram analisadas pelos autores do artigo. Novamente, houve uma enorme variação entre os países: enquanto na China, 44,1% questionaram a efetividade da PrEP em proteger contra o HIV, o número da Malásia para a mesma questão foi de 9,8%.

A necessidade de um uso frequente do medicamento apareceu como barreira em alguns estudos. A demanda por uma dosagem diária e a dificuldade de adaptação a esta rotina é um fator que desanima alguns potenciais usuários, apesar de não ser uma unanimidade. HSHs da Índia e do Peru demonstraram mais interesse na PrEP injetável do que a dosagem oral, ao passo que estudos realizados na África do Sul apresentarem uma preferência pela pílula diária.

O medo de estigmatização por usar medicamentos relacionados ao HIV também é um fator que afasta usuários potenciais. Além deste receio, o temor de ser reconhecido publicamente como um homem que faz sexo com homens ou promíscuo apareceu de maneira relevante em muitos voluntários. Vale lembrar que em alguns países em desenvolvimento considerados pelo estudo – como na Índia e na Birmânia-, a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo é criminalizada.

Dentre os tópicos analisados, um dos que mais chamou a atenção dos pesquisadores do artigo foi a relação entre o baixo conhecimento prévio da PrEP contrastado com um alto interesse por este método após conhecê-lo melhor. Na Birmânia, enquanto apenas 5% dos voluntários conheciam a PrEP antes de participar da pesquisa, 62% demonstraram interesse em usá-la; no Brasil, esta relação foi de 61,3% para 82,1%. Segundo os autores do texto, tal variação pode ser apontada como uma das principais características de países que ainda não tiveram experiência com a PrEP fora de estudos controlados. A maioria dos países em desenvolvimento se encaixa nesse perfil, ao contrário de locais como os Estados Unidos e Europa. Fatores estruturais, sociais e por vezes legais, também aparecem como barreiras decisivas a serem vencidas para a implementação da PrEP.

Link para o resumo: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28691439

Fonte da imagem: https://www.childrenandaids.org/PrEP-testing 

[1] Título original: Awareness and willingness to use HIV pre-exposure prophylaxis among men who have sex with men in low- and middle income countries: a systematic review and meta-analysis.

[2] Este tópico avalia em que medida os voluntários conheciam a PrEP e seu funcionamento antes de ingressarem em um estudo.