A dupla invisibilidade de gays que vivem com HIV no Brasil
Desde 1982, ano do primeiro caso confirmado de HIV no Brasil, avanços científicos tornaram a infecção pelo vírus uma condição tratável e intransmissível quando a carga viral é indetectável. Apesar disso, o preconceito, a estigmatização e a desinformação persistem, forçando muitos a ocultar a própria sorologia para evitar discriminação.
Ao refletirem sobre a necessidade de ocultar a própria sorologia entre homens gays, Diego Santos, especialista em Gênero, Sexualidade e Direitos Humanos pela Fiocruz, e Thiago Torres, pesquisador do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, também da Fiocruz, recorrem à imagem de um segundo armário. Em “O segundo armário dos gays que vivem com HIV”, um capítulo da publicação Direitos humanos e saúde: gênero e sexualidade em vozes insurgentes, os autores partem da premissa de que muitos desses sujeitos convivem simultaneamente com duas pressões para ocultação da própria identidade: a primeira relacionada à homossexualidade, e a segunda por viverem com HIV.
Para defender essa posição, o texto resgata a história da epidemia de HIV no Brasil, desde sua primeira recepção pela opinião pública como “peste gay” nos anos 1980, consolidando a associação entre a doença e a homossexualidade no imaginário social. A pesquisa também se apoia em dados contemporâneos, como os boletins epidemiológicos e estudos sobre estigma, revelando que o medo da discriminação ainda é uma barreira para a testagem e adesão ao tratamento, especialmente entre gays e outros homens que fazem sexo com homens jovens (de 18 a 30 anos).
O texto termina apresentando produtores de conteúdo digital que assumem publicamente sua soropositividade. Enfrentando preconceito e disseminando informações sobre tratamento e prevenção, canais no YouTube como “Projeto Boa Sorte”, “Doutor Maravilha”, “Super Indetectável” e “Falo Memo” mostram como novas formas de resistir podem ser potentes ferramentas de resistência à discriminação e à estigmatização.
Ao reforçar que o HIV não deve ser associado a grupos específicos, mas sim a comportamentos, os autores buscam também dissociar o HIV de uma infecção exclusiva de homens gays. Dessa forma, ao iluminarem as sombras desse “segundo armário”, os autores não apenas denunciam uma violência silenciosa, mas também convocam a sociedade a substituir o estigma pelo conhecimento, condição essencial para que viver com HIV deixe, enfim, de ser uma sentença de ocultação.
Link para o artigo: https://doi.org/10.7476/9786556308975.0009



