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Equilibrando a prevenção de IST e o uso de antibióticos: DoxyPEP simulada e estratégias de implementação no estudo ImPrEP

A DoxyPEP, profilaxia pós-exposição a infecções sexualmente transmissíveis (IST), baseada no antibiótico doxiciclina, já se mostrou uma estratégia eficaz para a prevenção de sífilis, clamídia e gonorreia em diversas regiões, mas seus dados ainda são limitados na América Latina.

Estudo conduzido por Mayara Secco, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI-Fiocruz), no Rio de Janeiro, e outros pesquisadores*, avaliou a utilização da DoxyPEP em cenários hipotéticos entre gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens (HSH) e mulheres transgênero, participantes do estudo ImPrEP, no Brasil, México e Peru. O ensaio foi apresentado, em forma de pôster, na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI), realizada de 22 a 25 de fevereiro de 2026, em Denver, nos Estados Unidos.

Foram considerados elegíveis para a pesquisa, realizada de 2018 a 2021, HSH e mulheres trans classificados como em alto risco para aquisição do HIV, todos maiores de 18 anos. Os investigadores modelaram a prescrição da DoxyPEP em três cenários simulados: 1) início do medicamento na inclusão na análise, independentemente do diagnóstico para IST (DoxyPEP universal); 2) início da DoxyPEP após qualquer diagnóstico positivo para IST; e 3) início da doxiciclina em caso de um diagnóstico positivo para IST apenas na inclusão no estudo.

Os chamados diagnósticos evitados foram estimados pelos pesquisadores por meio de um cálculo que consistia na multiplicação da incidência de IST observada na pesquisa pela eficácia da doxiciclina obtida em ensaios clínicos.

Dos 9.509 voluntários do estudo ImPrEP, 7.529 atenderam aos critérios de elegibilidade da análise. Desses, 95,4% se definiram como HSH e 70,9% como não brancos. A média de idade da amostra foi de 29 anos. Todos os participantes no hipotético cenário 1 receberiam a DoxyPEP, em comparação com 39,9% e 23% das pessoas nos cenários hipotéticos 2 e 3, respectivamente. Entre os 3.795 casos de IST registrados durante o período de acompanhamento, estimou-se que o cenário 1 evitaria 77,6% dos diagnósticos, contra 39,2% no cenário 2 e 25,7% no cenário 3.

De acordo com os autores, em uma população com alta vulnerabilidade à IST, a DoxyPEP universal poderia reduzir significativamente a incidência das infecções, mas estaria associada a um elevado consumo de antibióticos (doxiciclina). Por isso, destacam que estratégias de prevenção baseadas em diagnósticos podem oferecer uma abordagem mais eficiente e racional para o uso do medicamento.

*Autores:

Mayara Secco (1), Ronaldo Ismério (1), Iuri Leite (1), Marcelo Cunha (2), Thiago Torres (1), Carolina Coutinho (1), Brenda Hoagland (1), Marcos Benedetti, Hamid Vega-Ramírez (3), Kelika Konda (4), Carlos Cáceres (4), Cristina Pimenta (1), Valdiléa Veloso (1), Beatriz Grinsztejn (1)

(1) Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, Fiocruz, Rio de Janeiro, Brasil

(2) Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, Fiocruz, Rio de Janeiro, Brasil

(3) Instituto Nacional de Psiquiatria Ramon de La Fuente Muñiz, Cidade do México, México

(4) Universidade Peruana Cayetano Heredia, Lima, Peru.