Espaço Trans HIV, IST e Outros

Novos diagnósticos e vulnerabilidade ao HIV entre travestis e mulheres transgênero no Rio de Janeiro

Travestis e mulheres transgênero apresentam uma vulnerabilidade desproporcional ao HIV, especialmente entre as mais jovens. Apesar da oferta gratuita de testagem, profilaxia pré-exposição (PrEP) e tratamento antirretroviral pelo SUS, barreiras como discriminação e dificuldade de acesso a serviços de saúde comprometem a prevenção e o tratamento adequados. Diante desse cenário, Emilia Jalil, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz-RJ, e colaboradores* investigaram novos diagnósticos de HIV e fatores associados à vulnerabilidade entre travestis e mulheres trans jovens (18-24 anos) na cidade do Rio de Janeiro. O artigo foi publicado na edição de julho/agosto do Brazilian Journal of Infectious Diseases.

 

O estudo analisou os dados iniciais de 164 participantes incluídas de fevereiro a julho de 2022 no projeto Brilhar e Transcender. A iniciativa combinava acompanhamento presencial e recursos digitais conduzidos por pares para facilitar o acesso à prevenção e ao tratamento do HIV. Entre as participantes, 22 (13%) viviam com o vírus. Destas, 15 (68%) desconheciam sua condição sorológica e receberam o diagnóstico durante o estudo. Foi possível avaliar o tempo de infecção em 12 delas, pois não havia amostras disponíveis das outras três. Entre as 12 participantes avaliadas, quatro (33%) apresentaram infecção recente. Além desses resultados, foi identificada uma elevada frequência de outras infecções sexualmente transmissíveis: 23,1% tinham sífilis ativa, 15% clamídia retal e 13% gonorreia retal.

 

Sobre a relação entre idade e risco de infecção, a análise mostrou que as participantes de 18 e 19 anos apresentavam maior probabilidade de receber um novo diagnóstico de HIV. A baixa escolaridade e o risco moderado ou alto relacionado ao uso de crack ou cocaína também permaneceram associados ao diagnóstico positivo.

 

Como concluem os autores, os resultados indicam que a vulnerabilidade ao HIV entre jovens travestis e mulheres trans não pode ser explicada apenas por comportamentos individuais, mas se relaciona com desigualdades sociais e estruturais que dificultam o acesso à prevenção e ao cuidado. Com isso, o estudo reforça que intervenções voltadas a essa população devem considerar a interseção entre fatores sociais e necessidades estruturais para garantir efetivamente o acesso à prevenção e ao cuidado do HIV.

 

Link para o artigo:

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S141386702601264X?via%3Dihub

* Autores do artigo:

 

Emilia Jalil (1), Carolina Coutinho (1), Thaylla Wargas (1), Camila Santos (1), Carolina  Arsolino (1), Neilane Bertoni (2), Isabele Moura (1), Cristiane Castro (1), Ronaldo Moreira (1), Brenda Hoagland (1), Sandra Cardoso (1), Laylla Monteiro (1), Sylvia Teixeira (3), Valdiléa  Veloso (1), Thiago Torres (1), Beatriz Grinsztejn (1) e Erin Wilson (4, 1).

 

(1) Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, Fiocruz, Rio de Janeiro, Brasil

(2) Instituto Nacional do Câncer, Rio de Janeiro, Brasil

(3) Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz, Rio de Janeiro, Brasil

(4) Departamento de Saúde Pública de São Francisco, São Francisco, EUA.